Bom cenário para a carne

Roberto Rodrigues*

Um dos setores do nosso campo que vem apresentando grande avanço é a pecuária de corte. Depois de um período muito difícil, com a aftosa no Mato Grosso do Sul, em 2005, e posteriores exigências de rastreabilidade pela União Europeia, em 2008 (a crise financeira também prejudicou), deixamos de exportar para muitos países; a partir de 2014, voltamos crescer.

O futuro parece igualmente promissor. A FAO e a OCDE mostram que Ásia será responsável por 56% do aumento da demanda global por proteína nos próximos dez anos. Aliás, nos últimos dois anos, Hong Kong ultrapassou a Rússia como maior compradora das carnes brasileiras.

O estágio atual de avanços e as perspectivas favoráveis para o futuro não são fruto do acaso. Nos últimos anos, esse setor buscou tecnologia, profissionalizou-se, evoluiu bastante na questão sanitária, modernizou-se, enfim, fez o que lhe garantiu maior competitividade...

Mas, o acesso e a manutenção de mercados dependem de duas questões principais: o status sanitário do país e os acordos comerciais, sobretudo bilaterais, com outros países ou blocos.

Por falta de garantias sanitárias convincentes, não conseguimos ainda acessar quase metade do mercado mundial de carne bovina, inclusive no nosso continente (Estados Unidos, México e Canadá), além dos poderosos mercados asiáticos, (Japão, Coreia do Sul e Indonésia), sem falar de restrições eventuais da União Europeia e da Rússia. E sem falar também sobre o tema dos resíduos de ivermectina na carne industrializada exportada aos Estados Unidos e sobre alguns embargos determinados pelos focos da “falsa vaca louca” deste ano.

No entanto, temos avançado quanto a essa questão. Depois que a OIE reconheceu, recentemente, algumas áreas do Nordeste e, até mesmo, do Norte do País como livres da febre aftosa “com vacinação”, já uma real perspectiva de, no curto prazo, ficarmos livre da doença. A OIE manteve também nosso status de risco insignificante para BSE (vaca louca).

A GTA (Guia de Trânsito Animal) eletrônica trará grandes avanços nos controles sanitários, e a cadeia produtiva da carne vem trabalhando com afinco para resolver o problema dos resíduos de medicamentos.

Tudo depende, em grande parte, de que a defesa sanitária tenha um peso político tão relevante quanto o seu peso econômico, sobretudo tendo em vista os grandes mercados ainda por conquistar.

E é por isso que a ideia da Agência de Defesa Agropecuária vem ganhando força nas discussões em torno de um Plano de Ação para o próximo presidente da República. Não pode haver intervenção política, ou ideológica, num setor tão relevante quanto esse.

Temos muito a avançar. Podemos, com um esforço relativamente simples, mais do que dobrar o atual número de cabeças por hectare em todo o País, e é notável o que já acontece em algumas regiões mais modernas. A integração lavoura-pecuária vem se mostrando um programa extraordinário, criando uma demanda inesperada por bezerros e novilhos/novilhas, determinando um ágio nos preços destes animais que chega a provocar um desiquilíbrio em relação ao preço dos bois prontos para o abate. Cresce o cruzamento industrial, com novas tecnologias, como estação de morte, inseminação artificial e transplante de embriões. O pecuarista mudou de cabeça!

E a indústria, que contou com o apoio do Governo, aproveitou os créditos disponibilizados, concentrou-se e também se adaptou para competir no mundo todo. É claro que os temas que afetam a indústria em geral também perturbam os frigoríficos: carga tributária alta, logística precária, insegurança jurídica, burocracia exagerada e acordos comerciais insuficientes. O Brasil não se qualificou para disputar acordos bilaterais essenciais. Mas, até isso está mudando: se sair o acordo com os Estados Unidos para exportação de carne in natura e se a União Europeia e o Mercosul se acertarem (se a Argentina deixar, mais uma vez), daremos saltos extraordinários.

Afinal, estamos melhorando a nossa imagem lá fora, além do fato de não haver outro país com nossas condições de crescimento sustentável em pecuária.

 

*Coordenador do Centro de Agronegócios da FGV, embaixador especial da FAO para as Cooperativas, presidente da Academia Nacional de Agricultura (SNA) e presidente do Conselho da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA)

 

Fonte: Revista AGROANALYSIS - A Revista de Agronegócio da FGV - Volume 34; número 08; agosto 2014 

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