Agrourbano

Roberto Rodrigues*

José Luiz Tejon Megido, maior autoridade brasileira em Marketing Rural, coordenou recentemente uma pesquisa para a ABAG e a ESPM sobre a percepção da sociedade urbana a respeito das atividades agropecuárias e agroindustriais. Seu estudo foi apresentado no 13º Congresso da ABAG, realizado no último dia 4 de agosto, no Painel “O agronegócio e a sociedade”.

Tejon tirou algumas interessantes conclusões do trabalho realizado em doze das maiores cidades do País, somado a outras análises, como uma sobre a classe C da cidade de São Paulo. Eis suas observações:

  • Hoje a população brasileira reconhece a importância do agronegócio na economia, na renda e na geração de empregos e olha o setor de forma positiva.
  • A agroenergia – especialmente o etanol e o biodiesel – é considerada como relevante para a qualidade de vida urbana, mesmo para a população mais indiferente ao agro. Nesse caso, ressalta-se a visão favorável à agroenergia por suas externalidades, como redução das emissões de CO2, melhorando a saúde pública.
  • Falta informação adequada sobre temas preocupantes, como transgenia, florestas, segurança alimentar, água, reforma agrária e outros. Só com comunicação mais consistente estes assuntos serão claramente interpretados.
  • De maneira geral, a modernização do campo é reconhecida: os barões de café, os senhores de engenho, coronéis e caudilhos são imagens do passado. Isso se traduz, do ponto de vista eleitoral, pelo desejo dos entrevistados de que o próximo presidente da República comprometa-se com temas cruciais para o agro, como logística. O vínculo entre agro e qualidade de vida ficou claramente demonstrado.

Estas observações todas são o resultado dos principais dados da pesquisa, como, por exemplo:

  • 78% dos entrevistados associam a palavra “agronegócio” a agricultura e pecuária, 69% incluem hortifruticultura, 59% mencionam insumos e máquinas, 58% tocam na indústria de alimentos, 46% apontam supermercados, padarias e feiras. Ou seja, há boa noção do conceito de cadeia produtiva.
  • Cerca de 87,5%  dos entrevistados acham muito importante o agronegócio para sua cidade; 90,8% para o Estado; e 91,2% para o País! E outros 91,9% consideram que o setor gera empregos nas cidades. A ligação rural-urbana  fica endurecida.
  • 89,9% acham que precisamos usar mais energia renovável, e 86,3% confiam que os biocombustíveis diminuem a poluição urbana, mitigando o aquecimento global.
  • Sobre infraestrutura, mais de 83% pensam que as estradas do interior são mal conservadas, que os portos são antigos e mal gerenciados e que é preciso investir no transporte ferroviário. Tudo muito em linha com as demandas do agro na questão logística.
  • Também interessante: 72,8% dos consultados não votam em candidatos que façam pouco caso da agricultura, e 83,7% votariam em quem desse mais atenção aos nossos produtores rurais.
  • Por fim, sobre temas polêmicos, 66,9% acreditam que a reforma agrária não resolve mais os problemas de inclusão social no País, 42,7% não gostam dos transgênicos, 90% acham que o Governo precisaria melhorar a fiscalização dos defensivos agrícolas, e 58% concordam com as reclamações dos agricultores.

Uma interessante numerologia para os candidatos às eleições de outubro.

Uma grande curiosidade: a maioria dos entrevistados mostrou seu destemor quanto à possibilidade de faltar comida no nosso País. Os cidadãos urbanos assumem, dessa forma, que os produtores rurais serão capazes de prover as mesas de todos os brasileiros. Essa confiança – que não é comum a outros países em que a fome já existiu ou ainda existe – é positiva do ponto de vista da tranquilidade dos comentários; por outro lado, pode passar a impressão de que políticas públicas para garantir o suprimento interno, gerando renda rural e excedentes, não sejam necessárias. Há uma certa contradição nisso quanto ao apoio a candidatos favoráveis ao agro.

O que falta mesmo é melhorar a informação e a comunicação com qualidade. 

 

* Coordenador do Centro de Agronegócio da FGV, embaixador especial da FAO para as Cooperativas, presidente da Academia Nacional de Agricultura (SNA) e presidente do Conselho da União da Indústria de Cana-de-Açúcar (UNICA).

Fonte: Revista AGROANALYSIS - A Revista de Agronegócio da FGV - Volume 34; número 09; setembro 2014

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